Desdobramentos do Caso Daniel Vorcaro Expõem Entranhas do Sistema Político Brasileiro
A crise política desencadeada em torno do nome do banqueiro Daniel Vorcaro adquire em alguns aspectos a proporção de crise institucional, por envolver figuras do topo do Judiciário e de quase todo o sistema político, passando até mesmo pela Procuradoria-Geral da República.
No centro desta crise, reina soberano a figura do banqueiro Daniel Vorcaro com quem, aparentemente, todas as principais figuras de peso da República mantinham algum tipo de relação de proximidade:
Desde políticos da esquerda como o senador Jacques Wagner, passando por figuras de peso do Centrão e os principais nomes da direita bolsonarista, alcançando membros da cúpula do Judiciário, além de respingar até mesmo nas instituições da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal, cujo diretor-geral está sendo alvo de pedido de afastamento e de prisão preventiva por iniciativa do Partido Novo.
Até o momento, o Banco Central do Brasil é a única instituição de Estado que não teve algum nome de seu integrante envolvido diretamente nesse imbroglio, cujo pivô é a figura do banqueiro que tem pautado o noticiário político nacional.
O fato do dono de um banco que foi liquidado (fechado) pela autoridade monetária do Banco Central por conta de suspeitas de fraudes que envolvem cifras da ordem de R$ 12 bilhões, ser o pivô de uma crise política com contornos de crise institucional dá uma medida do grau de deterioração do sistema político brasileiro.
Essa deterioração não tem a ver apenas com a crise desencadeada e protagonizada pelo banqueiro. É uma deterioração que mostra o quanto o nosso sistema político é endógeno e se movimenta unicamente pelos seus interesses intrínsecos, descolados por completo dos reais problemas que afetam o dia a dia da vida concreta de milhões de brasileiros.
Em pleno ano eleitoral, o centro das discussões políticas deveria estar tomado por pautas relacionadas aos nossos principais problemas nacionais: endividamento público, emprego e renda, sistema tributário, o problema da desindustrialização, nosso atraso tecnológico, a precariedade de nosso sistema educacional, as ameaças constantes à nossa soberania nacional, entre outros.
Nenhum desses temas, os únicos que interessam de fato aos brasileiros, ocupa a atenção dos políticos ou dos chamados formadores da opinião pública, aqui incluindo obviamente a imprensa e os agentes políticos da esquerda ou da direita que atuam nas redes sociais.
Ironicamente, de certa forma o caso Vorcaro vem como uma cortina conveniente na hora certa (ano eleitoral) para servir de pano de fundo do palco da política, onde o teatro farsesco pode continuar sendo encenado sem que seus atores precisem se preocupar com a ausência de vínculos da peça encenada com a realidade vivida pela plateia. (Paulo Eneas)
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