Eleições Presidenciais: A Surpresa da Terceira Via Improvável

Pesquisas eleitorais divulgadas nesta segunda-feira (31/08) por dois institutos de pesquisas distintos mostram a consolidação, ao menos momentânea, do nome candidato estreante Augusto Cury (Partido Avante) na terceira posição da corrida presidencial, desbancando nomes já conhecidos da política, como Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) e o  também estreante Renan Santos (Missão).

Augusto Cury aparece com 7.8% das intenções de voto no primeiro turno na pesquisa da Atlas/Bloomberg, ficando atrás de Lula (PT) que apresenta 43,4% das intenções e de Flavio Bolsonaro (PL) que exibe 33.7% de preferência entre os eleitores consultados. 

Em seguida aparecem os nome de Renan Santos (Missão) com 7.6%, Ronaldo Caiado (PSD) com 3.3% e Romeu Zema (Novo) com 4.2% das intenções de voto entre os 5014 eleitores consultados pela pesquisa.

Por sua vez, a pesquisa da Nexus/Banco BTG Pactual mostra Augusto Cury com 11.0% das intenções de voto, também à frente de Caiado, Renan Santos e de Romeu Zema. 


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Um possível esgotamento da polarização
O dado mais  relevante no caso da pesquisa da Atlas/Bloomberg ao nosso ver é aquele que mostra que a soma das intenções de voto nos quatro candidatos mais bem colocados depois de Lula e Flavio Bolsonaro totaliza cerca de 22% dos eleitores consultados.

Esse percentual não é desprezível e sinaliza a intenção de uma parcela expressiva do eleitorado brasileiro de romper com a polarização bolsonarismo x petismo inaugurada no Brasil desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e que teve seu auge na campanha vitoriosa de Jair Bolsonaro em 2018. 

Essa polarização teve como principal consequência negativa o deslocamento do foco do debate público nacional, que deixou de tratar de modo propositivo dos temas materiais concretos que afetam a vida real do brasileiros e passou a ocupar-se unicamente dos embates ideológicos.

O desempenho até esse momento da candidatura do estreante Augusto Cury, psiquiatra e escritor de livros de autoajuda, parece refletir uma estratégia que soube identificar o esgotamento e cansaço do eleitor com a polarização puramente ideológica do bolsonarismo x petismo: o discurso de campanha do candidato é desprovido de qualquer conteúdo ideológico manifesto.

Obviamente aqui algum leitor poderá discordar lançando mão do conhecido argumento circular que afirma que ausência de "posicionamento" ideológico é também uma escolha ideológica. Nesse caso, trata-se de um argumento que pode encontrar lugar mais fértil e apropriado no campo das crenças e não no território material e concreto da ciência política.

A Terceira Via Considerada Improvável
Caso esse cenário projetado por essas últimas pesquisas se consolide até o final da campanha, estaremos possivelmente assistindo à materialização da ideia da Terceira Via como alternativa à polarização petismo x bolsonarismo. 

Essa materialização de uma terceira via a que nos referimos não diz respeito ao resultado mais provável da eleição presidencial desse ano, que será decidida entre os dois candidatos do campo da polarização: Lula ou Flavio Bolsonaro.

A ideia de uma terceira via que viesse a romper a polarização instalada no Brasil desde 2014 havia sido lançada há alguns poucos anos pelos hoje quase extintos tucanos que, por estarem em processo de extinção enquanto força política desde aquele ano, não tiveram a competência (ou interesse) em viabilizá-la como alternativa política para o País.

Por fim, cabe observar que esta Terceira Via já vem se manifestando em eleições recentes de forma potencial por meio de iniciativa dos próprios eleitores: na ausência de força política eleitoralmente viável capaz e romper com a polarização, o próprio eleitor tem se encarregado de negá-la e deslegitimá-la, abrindo mão do seu direito de votar.

Essa insatisfação do eleitor ficou patente no segundo turno da última eleição municipal paulistana (2024), quando a abstenção alcançou a marca de 31.5% dos eleitores aptos a votar, enquanto os votos brancos e nulos somaram 10.42% dos sufrágios. 

Ao final, a soma de votos nulos, brancos e abstenções naquele pleito municipal alcançou 3.62 milhões de eleitores, número superior aos  3.39 milhões de votos obtidos pelo candidato vencedor, o atual prefeito Ricardo Nunes, apoiado pelos bolsonaristas. Ou seja, a terceira via foi a vencedora, mas sem candidato: venceu pela manifestação espontânea da maioria do eleitorado que rejeitou os candidatos protagonistas oferecidos pela polarização.

Paulo Eneas
Com informações da Bloomberg Linea

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